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OBRA DE QUALIDADES ÚNICAS
Três exposições de Amador Perez estão à disposição do público do Rio de Janeiro atualmente: Speculatio, no Paço Imperial, Impressões da arte, na galeria do Centro Cultural Cândido Mendes de Ipanema e Amador Perez, desenhos e tonergrafias, na galeria Anita Schwartz do Leblon.
Nos últimos trinta anos Perez construiu não só uma poética extremamente singular, como também vem conquistando uma legião de admiradores fiéis. Entretanto a reputação e o prestígio de Amador ainda estão aquém das qualidades únicas de sua obra. Talvez isso se explique pela distância existente entre seus interesses artísticos pessoais e os repertórios consagrados tanto pela tradição moderna, voltada para uma invenção formal avessa aos ícones, quanto pelas tendências icônicas, mas não artesanais permitidas pelas novas mídias, suportes e materiais do mainstream contemporâneo.
Poucos como Rafael Cardoso e Roberto Conduru, autores, respectivamente, dos textos do catálogo da mostras do Paço Imperial e do folder da Cândido Mendes, evitaram medir o trabalho de Amador em função de sua "desvantajosa" distância em relação a essas matrizes intelectuais para examiná-lo a partir da positiva, híbrida e discreta complexidade que o caracterizam.
Amador Perez sempre foi um artista da imagem, mas conforme observa Conduru "suas obras recentes reiteram que não lhe interessa tanto a representação do mundo, mas sobretudo o mundo da representação". A despeito de seu extraordinário domínio do grafite, este artista jamais baseou suas imagens em modelos naturais, tal qual o fizeram os artistas clássicos e acadêmicos, pois seu ponto de partida é sempre a apropriação e posterior recriação de imagens fotográficas que irão somar ao imaginário coletivo a marca de suas fantasias visuais.
Inicialmente estas apropriações incidiam sobre motivos anônimos, muitas vezes publicados nos jornais e revistas. Em seguida esses motivos eram reproduzidos e alterados, em alguns de seus detalhes, com precisão quase fotográfica, já que o desenho de Perez nasce qual a pintura não do traço, mas da produção, com o grafite, de gradações tonais que nos sugerem a incidência de luzes e sombras. Finalmente as imagens eram inseridas na nova cena criada pelo artista.
Há anos Amador passou a demonstrar, porém, interesse prioritário pela apropriação de imagens da arte, ícones consagrados pela história que ele nos restitui por meio de uma incrível capacidade de "fotografar" com as próprias mãos a interseção de seu imaginário pessoal com o imaginário coletivo.
Nos trinta desenhos-objetos expostos no Paço Imperial essa interseção é notória. Baseados em auto-retratos de artistas como Caravaggio, Goeldi, Goya, Hopper, Ingres, Morandi, Van Gogh, Velázquez, entre outros, Speculatio encerra um paradoxo: refeitos por Amador deixariam de ser auto-retratos para se tornarem retratos? As pequenas janelas abertas na parte inferior dos passe-partout que enquadram os desenhos sugerem-nos uma outra leitura. Elas contêm outras imagens e até mesmo objetos cuja relação com os auto-retratos não é explícita e inteligível, posto que nascem da subjetividade de Perez.
Conforme Rafael Cardoso, "Não são retratos esses quadros. São espelhos. Espelhos que contêm retratos. (...) relíquias de uma experiência vivida (a do fazer) e de muitas outras vivências, alheias, imemoriais". São portanto uma espécie de auto-retrato multifacetado da poética do artista, não de sua aparência física.
Esse paradoxo, entretanto, nos remete a outros, de teor técnico, que não deixam de reverberar na poética de Amador. Batizadas por Lula Perez, seu irmão e colaborador de todas as horas, as tonergrafias não podem ser consideradas gravuras pois não resultam de incisões sobre as matrizes, mas do controle do toner na hora da reprodução. São imagens possibilitadas pelo acúmulo de camadas na superfície do papel, mais semelhantes à pintura que aos métodos gráficos. As tonergrafias são compostas de várias peças cuja configuração, na montagem, é variável conforme especificações do artista. Por outro lado, embora pareçam puramente tonais os desenhos (isto é pictóricos) nascem da sutil incisão do lápis que fere as entranhas do papel, gravando-os em sua carne tênue.
A riqueza da obra de Amador Perez reside na edição de detalhes, na produção de conexões trançadas por memória e habilidade. É pois estranha à lógica espetacular e cênica de parte da produção contemporânea, de gestalt oposta ao silêncio intimista da contemplação que seu trabalho nos propõe.
Fernando Cocchiarale Artigo publicado no Jornal do Brasil, coluna Exposição coletiva, 2005, por ocasião das exposições comemorativas dos trinta anos de atividade artística profissional de Amador Perez
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