C r í t i c a  |  H e r k e n h o f f

A obra de Amador Perez pertence à ordem das imagens. O virtuosismo é a trincheira de resistência do caráter verista da imagem, que recorre e embate-se com a fotografia e o próprio verismo da pintura clássica. Gesto e olho fotográficos aparentemente operam uma fábrica de duplicação do real. E esse é um real que sai da história da arte, sobre a qual o desenho de Amador Perez constitui-se num olhar privado. Como todo duplo, o artista produz uma veracidade falaciosa. De Blake a Böcklin, os referenciais históricos de Perez são falsamente submetidos ao filtro da fotografia (reproduções fotográficas impressas de obras de arte). Há um câmbio de corporeidade. A temperatura e a carnalidade da pintura transferem-se para o mundo de luzes e sombras e mineralidade do grafite. Essa migração da imagem através dos meios, cria um encadeamento de duplos (o duplo do duplo), para encontrar, no final, um real novo, o desenho. O método do desenho de Perez opera em dois polos opostos da visibilidade: o excesso e a diluição. Nas citações Perez parece descarnar as pinturas, expondo-lhes uma estrutura de desenho, como acento dessa origem da imagem. No seu Newton, a partir da obra de Blake, a anatomia do cientista parece entrar num colapso vertiginoso, como numa pane da lei de gravidade. O desenho é declarado e celebrado. Mas seu traço também pode ser imperceptível, como um gesto ausente produzindo sombras. Agora, mais do que confirmar o virtuosismo ou o itinerário do gesto, a diluição da marca nervosa do sujeito termina por ser uma afirmação última do próprio desenho.
 
Paulo Herkenhoff
Condensado de texto para a exposição Preto no branco e/ou, 1994