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Para um artista como Amador Perez, que se dedica com quase exclusividade ao desenho há tantos anos, a opção por fazer gravuras poderia representar uma cisão radical. Ao longo das duas últimas décadas, seus desenhos têm tomado como principal ponto de partida reproduções de obras de arte, pinçando imagens do tráfego visual barulhento que caracteriza o mundo pós-moderno e atribuindo-lhes novo encanto através de um processo ao mesmo tempo obsessivo e grandioso de releitura e refazimento, o qual equivale a uma verdadeira recriação. O que pensar, então, de um Amador gravador? Uma concessão tardia à reprodutibilidade mecânica, em plena revolução eletrônica? Longe de se configurar em cisão, a gravura de Amador dá continuidade conceitual aos seus esforços como desenhista.
É o caso da presente obra, baseada na Gioventù de Eliseu Visconti. Longe de ser uma reprodução de qualquer original, essa Gioventù gravada se oferece ao olhar do espectador como uma obra nova, totalmente reconfigurada. Dividida em três partes -- correspondendo a três técnicas: água-forte, serigrafia e ponta-seca --, a menina dos olhos do artista aparece aqui ocultada e revelada em três tempos. Em cima, a mancha borrada, evidenciando o gestual livre do impressor ao entintar a chapa. No meio, a imagem dourada em negativo, deixando transparecer a intervenção discreta do designer na elaboração de retículas. Em baixo, linhas e verniz, um eco longínquo da pintura. É tudo ruptura nessa imagem: dos espaços que quebram sua unidade, até a chapa não polida que enche o campo visual de sujeiras e marcas. É tudo avesso nessa imagem: desde a assinatura espelhada do seu (segundo) criador, até os sulcos que refazem de modo irônico a trajetória da tinta, como que negando seu estatuto de desenho e traço.
Fiel às questões que vem norteando seu trabalho há tantos anos, Amador faz uso das técnicas da gravura para gerar não a reprodução fácil, mas a obra única na sua densidade e contrariedade. Como a mancha escura e luminosa dessa Gioventù, a obra de Amador ilumina as avessas... luz negra para clarear um caminho obscuro.
Rafael Cardoso Texto para a exposição no projeto Amigos da Gravura, dos Museus Castro Maya, no Museu da Chácara do Céu, 2001.
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