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IMAGINAÇÃO CRÍTICA
A variedade de meios tem sido uma constante nas exposições recentes de Amador Perez, nas quais mesclou desenhos, gravuras e obras produzidas com meios digitais. Se ao compor Impressões da Arte apenas com tonergrafias parece contradizer essa tendência, exibe ao mesmo tempo, no Paço Imperial, desenhos aos quais estão justapostos diversos elementos. Simultaneidade que remete ao período 1974-77, quando, em paralelo aos desenhos, experimentava com fotocópias de imagens geradas pela manipulação de fotografias impressas em jornais. Passado e presente que evidenciam como o seu trabalho é regido pelo princípio da colagem e sua conseqüente abertura à heterogeneidade, tão característicos da modernidade artística.
Dada a variedade de meios que usa, qualificá-lo como desenhista é insuficiente. Para quem o supõe um explorador do desenho como meio de reprodução das coisas no real o que significa tomá-lo como exibicionista de uma técnica menos potente há um bom tempo suas obras recentes reiteram que não lhe interessa tanto a representação do mundo, mas sobretudo o mundo da representação.
Embora o seu trabalho seja geralmente posto à distância da cena contemporânea, ready made e apropriação são palavras-chaves desde a sua primeira hora. Em uma época na qual as únicas saídas possíveis para a arte parecem ser discutir o seu estatuto ou remoer o seu passado, dadas as poucas brechas existentes para a efetiva criação, ele tem operado com reproduções de pinturas e desenhos de diversos artistas pretéritos, lidando com as obras de arte enquanto imagens, como fatos culturais.
Amador Perez não parte de toda e qualquer imagem. Ao se fixar exclusivamente em obras figurativas, evitando a abstração, indica sua adesão ao humanismo, seu particular apego às coisas, aos seres e ao mundo. Praticando um juízo ao mesmo tempo crítico e afetivo, mas sem almejar falsos equilíbrios, oscila entre obras maiores e menores da história da arte. Las Meninas de Velázquez é uma escolha quase obrigatória em uma reflexão artística sobre a arte e o seu fazer. Leituras reincidentes sugerem vínculos quase obssessivos com algumas imagens, como Gioventù de Visconti, que parece venerar. Já The Daughters of Edward Darley Boit de Sargent o atraiu pela interferência causada na superfície do cartão postal pela máquina no instante da postagem, que alterou a imagem original o que indica como se interessa pelas obras em si, mas também por seus modos de difusão. E não só em meios impressos. Nas leituras de Die Toteninsel de Böcklin convergem suas experiências com algumas reproduções das várias versões do quadro, o filme de Boris Karloff, a sinfonieta de Rachmaninov e até uma das telas.
Suas obras se conectam às revisões feitas por Picasso de obras primas da história, embora sua gráfica amorosa seja bem distinta do ímpeto visceralmente pictórico do mestre espanhol. Também estão vinculadas à Pop Art e seus reprocessamentos das obras de arte com as linguagens dos meios de comunicação de massa. Contudo, a impessoalidade inerente às ações de Rauschenberg, Warhol e Liechtenstein é por demais estranha ao intimismo de Amador, que está mais próximo do pathos subjetivo de Hockney, ainda que muito distante da mundaneidade pop.
No Brasil, além de dialogar com Arlindo Daibert e suas leituras de clássicos da arte, seu trabalho configura um precedente para artistas como Adriana Varejão, Caetano de Almeida e Vik Muniz, que se situam na atual crise da imaginação formal investindo conceitual e subjetivamente na re-utilização de obras e imagens pré-existentes.
Para Amador Perez, as obras de arte são mundos por explorar. Por um lado, destaca a estrutura interna das imagens. Em reiteradas investidas, evidencia suas linhas e elementos de força de um modo tal que parece querer dissecá-las. Manipula as imagens por meio de fragmentações e partições geométricas, fazendo-as dobrarem sobre si mesmas e se expandirem, como nos diferentes formatos presentes nessa mostra. Gestalt consciente dos limites atuais para a invenção, mas também enraizada em vertentes do construtivismo no Brasil como o concretismo e o racionalismo arquitetônico. Em algumas obras, abandona a geometria euclidiana, intervindo na imagem com elementos da própria imagem, como nas últimas peças sobre Las Meninas, ou contrapondo imagens distintas de uma mesma obra, como ao reler Die Toteninsel, ou de obras diferentes, como no confronto entre La Grande Odalisque de Ingres e Madame de Récamier de David.
Por outro lado, foca nos meios técnicos de produção e reprodução das obras. Para Amador Perez, a imagem gráfica constitui o filtro quase puramente visual com o qual se relaciona, à distância, com as coisas, os seres e o mundo. Explorando o desenho, a gravura e outros processos de cópia e impressão, percorre as gamas possíveis entre o pleno alvor luminescente do papel e a saturação total com grafite ou pigmento minimiza a matéria, exalta a luz.
A produção das tonergrafias a partir da manipulação de imagens em meios digitais permite aprofundar experiências anteriores. Concentra a produção no âmbito doméstico, mas amplia a interlocução ao demandar a colaboração de Lula Perez e aumentar a tiragem das obras. Contendo a mão e seus virtuosismos, aproximando-se dos artifícios maquinistas e eletrônicos, libera a imaginação das limitações do corpo, radicaliza seu perfeccionismo técnico e manipula mais livremente as imagens, tornando-as ainda mais independentes da materialidade. E traz a cor com uma intensidade nunca vista em seu trabalho, ainda que fiel à sua condição gráfica.
Ao explicitar alguns meios de constituição e difusão da imagem, põe em foco justo o elemento ausente: a obra. Procura o artístico tanto nos elementos ocultos da figuração, quanto nos desvãos de sua reprodução. Não adere acriticamente ao fluxo que iguala as obras de arte à poluição imagética do mundo atual. Ao contrário, insere-se nos processos de criação e propagação das imagens tentando insuflar ânimo em estruturas desacreditadas e corruptoras, para reter a força das obras, o caráter aurático da arte.
Selecionando imagens da história da arte e não do mundo ou da mídia, como fez inicialmente, critica a banalização do imaginário contemporâneo. Ao capturar e manipular imagens, enredando obras, artistas e técnicas de modo não linear, nem estilístico ou cronológico, constitui uma trama particular que põe em questão a história instituída, mas não pretende ser uma alternativa. Apesar dessa dimensão crítica, sua operação é primordialmente artística, enfrentando o problema da criação sob o peso atual da história o título da mostra não é Expressões da Crítica.
Impressões da Arte deixa entrever a visão subjetiva de uma vivência no mundo da arte. Mundo rico e ameaçado que encanta Amador, se impregna no seu imaginário, no seu corpo, o possui e mobiliza. Cativo, o artista retorna sempre à arte, a algumas imagens, relendo-as por vezes com suas leituras prévias, construindo sua auto-imagem por meio delas.
Amador Perez revê a concepção de Alberti do plano de representação como janela aberta para o mundo. E nos remete à imagem das janelas d’alma. Criando um mundo próprio na arte, seus trabalhos são janelas de sua alma (e de seu corpo) que se abrem ao mundo por intermédio da história da arte. Daí ser pertinente a exposição acontecer na galeria Cândido Mendes, com sua grande janela, a «quarta parede» que abre Impressões da Arte aos múltiplos olhares da cidade e funciona como metáfora do desejo de diálogo do artista com o mundo por meio da arte.
Roberto Conduru Texto para a exposição Impressões da arte, 2005
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