C r í t i c a  |  C o n d u r u


CALMA TENSÃO
 
Como a superfície do mar calmo, onde se tocam as riquezas submarinas e tudo que o ar envolve, a pele das obras de Amador Perez é membrana fina e suave, constituída por múltiplos gestos e traços, mais todas as gamas de cinza existentes entre a luz e a escuridão. Essa mansidão não deve, entretanto, levar alguém a supor um fazer tranqüilo. O espelho d'água guarda tensões. O observador atento logo percebe como essa relva aquático-etérea é eriçada, apesar da meticulosa obsessão por uma precisão elegante, contida, que pouco se permite arroubos e desvairios.
 
Atuando no registro da música de câmara, em que a redução dos meios não significa perda de amplitude, Amador Perez força os limites do campo que traçou para si.
 
Além do desenho, a exploração das capacidades expressivas dos meios gráficos estendeu-se recentemente à gravura e aos meios digitais, retomando suas experiências com reprodutibilidade desenvolvidas a partir de fotocópias nos anos setenta. Ao digitalizar, esquartejar e por na cruz a Femme nue debout de dos, de Prud'hon, ensaia possibilidades outras não só quanto à técnica e à autoria, mas também de formato e escala.
 
Tão cantada pelos admiradores e na fortuna crítica, a técnica é o fio-da-navalha do artista, que precisa domar a perícia, contendo o exibicionismo e revertendo a neutralidade, para fazer as imagens fluírem. Imagens que também correm riscos ao deambularem à beira do precipício da ilustração.
 
Jogando discretamente com o sistema da arte, calculando retiros e intervenções, o artista volta ao circuito das galerias comerciais após longa ausência. Usando a reprodutibilidade técnica também como modo de tornar seu trabalho mais acessível, inicia com as tonergrafias uma difusão do trabalho efetivamente ao alcance de seu público na qual tem o desafio de equacionar qualidade e quantidade.
 
Amador Perez enfrenta as dificuldades da imaginação formal na conjuntura histórica contemporânea apropriando-se de imagens, sobretudo do mundo da arte. O precedente de suas apropriações não é, contudo, a Gioconda com bigode de Duchamp, nem Warhol atualizando as cores de Matisse, muito menos Rauschenberg apagando De Kooning ou as citações díspares de Schnabel. Seu enfrentamento da história da arte é próximo da reelaboração de telas de Courbet e Velázquez feita por Picasso.
 
Aumentando a provocação auto-imposta, Amador Perez concentra-se ainda mais em obras-primas da história da arte, em retratos, modelos e auto-retratos de ninguém menos que Corot, Courbet, Dix, Dürer, Goya, Hogarth, Ingres, Michelangelo, Munch, Prud'hon, Rembrandt, Ticiano, Velázquez e Vermeer.
 
Se as telas de Picasso são embates pictóricos nos quais está em jogo a vitalidade da Pintura, Amador Perez vive os dilemas da criação na arena gráfica. Transpostas para esse universo, as formas reverberam como imagens. O artista as manipula sem pudor: rebate, duplica, apaga, soma, corta, dobra e esquadrinha, destacando e revelando componentes de sua estrutura por meio da geometria euclidiana. Abandonando a tradução ótica das qualidades táteis, explora as propriedades visuais dos meios gráficos. Mesmo quando aparecem outros timbres, a cor é gráfica, revelando a proeminência concedida à luz. Com suportes e matérias declaradamente coadjuvantes, o trabalho roça os limites mínimos da substancialidade.
 
Na epiderme quase imaterial das obras encontram-se elementos que emergem da profundeza das imagens e projeções do artista, fundindo seus fantasmas com os da arte. Nos auto-retratos, retoma distanciadamente a procura da auto-imagem. Focando a cabeça e a mão, mais detidamente o olhar e o instrumental artístico, sublinha a dicotomia entre pensamento e ação. Nos retratos e modelos, é flagrante o erotismo, latente nas delicadas linhas e manchas que bolinam a corporeidade imagética. Carícias que clamam atenção para as imagens e, sobretudo, o fazer artístico.
 
A onipresença de Narciso permite que sua imagem esteja ausente. À beira d`água, a mirar esses espectros, chegará a hora de mergulhar.

 
Roberto Conduru
Texto para a exposição Espectros, 2003