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RETOMAR, DETALHAR, FOCAR
Três séries, com dez desenhos cada, compõem uma pequena parte dos trabalhos gráficos de Amador Perez. Cada série investiga, de maneira delicada, lúcida e afetiva, uma obra célebre da pintura européia. Dez desenhos relacionados ao quadro Otho, with John Larkin up, do inglês George Stubbs; dez desenhos ligados ao quadro Die Toteninsel, do alemão Arnold Böcklin; dez desenhos voltados para o quadro Répétition d’un ballet sur la scène, do francês Edgar Degas.
A escolha da cultura européia, das épocas, dos artistas e das obras específicas não é aleatória. Formam as três séries uma rede dialogante sobre parte da história da criação e dos criadores. Há, no trajeto e nas escolhas de Amador Perez, a evidência de um conjunto de valores, pacientemente elaborados, que permite sondar o imaginário estético e suas relações com a percepção - a percepção dos criadores e a percepção pública, a percepção histórica portanto. Sua obra visa a construir - além de uma visão, de um trabalho e de um domínio - uma filosofia da arte. Por isso, é necessário conhecer, olhar detalhes, perseguir linhas de força e criar, assim, as condições atuais para que os parceiros artistas falem. Suas vozes e intenções revividas pelos traços seguros do desenho. Assinalam-se rumos, sublinham-se vontades, revelam-se desejos e tentativas, removem-se os pentimentos. Pelas imagens gráficas criadas, a interpretação dos quadros escolhidos descreve princípios - artísticos e humanos - que presidem a economia de fazeres aparentemente tão distintos: Stubbs, Böcklin, Degas.
Da imponência do cavalo e do cavaleiro ostentada na pintura de Stubbs, Amador Perez refaz a técnica dessa construção e desse orgulho temporal, indicando as origens clássicas que guiaram a estrutura geral do quadro e insinuando, com um pouco mais de sombreamento, contrastes (e a pulsão) da luz romântica contida no fundo, no céu e nas nuvens. Mobilizando as duas forças - rigidez e sensualidade - intensifica-se, pela câmera gráfica de Amador, a volúpia implícita na compostura. A arte de George roça agora o seu outro, a arte de Amador. E deixa ver o que contém de desenho a geométrica estrutura das linhas.
No cruzar dos tempos, a tradição é revista segundo um sentimento novo sobre a relação que o presente deve travar com o passado: não mais parricida. A paternidade - os valores constituídos - deve ser exposta, examinada em seus prismas, deslocada de seu império, convidada à parceria. Olhada com amor, a tradição revela - para nosso espanto - suas rasuras. Na suavidade das tintas, mundanidade e paixões.
O romantismo, quase represado pela clássica organização formal de Stubbs, libera-se em toda a sua força trágica na paisagem grega do alemão Arnold Böcklin, restaurada pelo gesto arqueológico dos desenhos de Amador. Pesquisam-se aí a corporeidade das formas, o volume e, por meio deste, o vazio impensável. A ilha dos mortos, antes de ser atingida por aquele que conduz o barco, abre-se, como numa viagem a seu território, pelos ensaios dessa série. A imensidade dos blocos de pedra vai, aos poucos, tornando-se, no papel, templo e teatro. Recebendo (como já contaminando as séries pelos grafismos de Degas) as luzes artificiais do palco. A morte é assim, para Amador, amplo espaço: grande anfiteatro onde nosso imaginário inventa e encena seus fantasmas. Lugar apenas de representação.
Belos quanto os outros, os estudos da série sobre a tela de Degas funcionam como iluminadores dos aspectos da filosofia traçada pelo conjunto das obras. Explorando e apresentado os códigos do grafite, a série do balé trata do tema da arte, o tema enfim de todos os desenhos. A dança, o palco, a iluminação, o ritmo, o movimento, os artifícios circenses e a preparação contínua propõem o encontro de dois suportes (a tela e o papel), de dois instrumentos (a tinta e o grafite) e de dois artistas (Amador e Edgar). Nesse encontro, a comunhão de afetos e de escolhas semelhantes. Em Edgar Degas, a pintura perdendo sua massa de tinta e se transformando em grafismo; em Amador Perez, o desenho - reduzido à ilusão do postal - ganhando a densidade da pintura.
O cavaleiro e o cavalo (em Stubbs), o homem e o barqueiro (em Böcklin) e o ensaio (em Degas): a exuberância da vida, a exuberância da morte; experimentos.
Roberto Corrêa dos Santos
Texto publicado na revista The voice, Rio de Janeiro, 1987, e no livro Tais superíícies: estética e semiologia, Rio de Janeiro, 1998.
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